sexta-feira, 16 de março de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 2

É necessário ler:

A Ameaça do Cascudo

-Não vou! – bateu os pés a Rainha.

-Vai. Ah, você vai – pressionou Bonaparte.

-Sua mãe nunca te ensinou a não fazer Bloqueios Continentais contra os mais velhos? – disse a Rainha

-Na verdade foi ela que me ensinou tudo o que eu sei. Mas o Bloqueio Continental foi invenção minha mesmo. Então, não vai se unir ao império, vossa majestade?

-Não.

-Será que vou ter que obrigá-la?

-Tente. Mas aviso, se eu perceber o mínimo ruído de militares tentando tomar o poder do meu reino, te dou um cascudo bem no meio dessa sua testa chata. – disse, bebericando um pouco de chá.

Esses dizeres ficaram conhecidos como “A Ameaça do Cascudo”, apesar de ninguém conhecer realmente essa ameaça, nem saber se foi só ameaça.

...

O Império Ultramar Português é o termo utilizado para se referir à dominação Portuguesa de muitos territórios nos quatro cantos do planeta. Foi o primeiro e o mais duradouro dos impérios colonizadores.

O que nos interessa dele é o início, em 1415 com a conquista de Ceuta; o dito “Descobrimento” do Brasil, em 1500; e o fim, em 2002, com a Independência do Timor-Leste.

Vamos agora falar dos territórios que Portugal dominava no século XIX. A coisa mais em comum entre eles, além da língua, era o assalto que sofriam da Coroa Portuguesa. Ao contrário da Inglaterra, que preferia cordialmente que suas colônias fossem de povoamento, Portugal optava pelo o que eu chamo de Colonização Chupim.

A primeira coisa foram os escravos, depois o pau-brasil, e depois (não necessariamente nesta ordem) ouro, açúcar, café e a dignidade dos colonos. Tudo isso deu (e ainda dá) uma imagem de tirania à Portugal Metrópole. Chamado por todos (por mim) de Senhorio Cruel e Calculista. Não posso explicar o calculista, pois nem eu mesmo entendo o por quê.  Só posso explicar o porquê não seria calculista.

A tarde em questão, que podia muito bem ser uma noite ou uma bela manhã, foi num dia não especificado entre 1806 e 1808, que eu acabei de inventar.

Dom João, que estava comendo baguetes com bacalhau (sua cozinha preferida), na sacada de seu suntuoso palácio de Queluz, recebeu uma carta da senhora sua majestade Rainha da Inglaterra:

Londres, dia não especificado entre 1806 e 1808

Caro Dom João.
As coisas por aqui estão terrivelmente pretas, aquele Napoleão não tem modos, e a mãe dele menos...

Como você provavelmente sabe, ele decretou o Bloqueio Continental, e não adiantou ralhar com ele. O senhor sabe que isso afeta nossos acordos, portanto, há de tomar uma providência

Atenciosamente, a Rainha da Inglaterra.

PS.: quando puder, venha tomar um chá.

A resposta foi-se logo em seguida:

-Alguma sugestão, Rainha?

-Ora, claro que tenho, mas o Império é seu, não é mesmo?

-Sim, sim, mas tu podes dar sugestões o quanto quiseres, sugestões não são ordens. Pelo menos eu acho que não.

-Eu não preciso, caro Dom João, só há uma saída.

-E qual seria?

-Ora, não é óbvio? É só somar dois mais dois!

-Ora pois, são cinco! Mas no que isso me ajuda?

-Em nada, foi uma figura de linguagem. O que quis dizer foi que só é preciso pensar um pouco.

-Pois então é aí que estás o problema. Pensar me dói a cabeça, e eu odeio que me doa a cabeça, por que não consigo comer baguete com bacalhau quando me dói a cabeça.

-Pois faça um esforço, não posso manter relações mercantes com um príncipe que não toma doril.

Dom João, ouvindo os galopes apressados de cavalos hispânicos e franceses ao longe, cujos donos haviam combinado atacar Portugal e tomar suas colônias se ele não se decidisse, começou a se desesperar.

-Raios, Rainha! Queres me ver em maus lençóis? Diga logo o que queres que eu faça!

-Okay, okay, é só fugir.

-Mas opá! Até eu podia ter pensado numa coisa dessas!

-Na sua expectativa mais impossível, acho que sim.

Houve uma pausa.

-Rainha...

-Ainda está aqui?

-Não entendi muito bem, sabe como é... Fugir para donde?

-PELO AMOR DO REI ARTHUR! Para onde mais? Para o Brasil!

-Ah, claro, claro. Era óbvio.

Houve outra pausa.

-Eh, Rainha...

-O QUE FOI DESSA VEZ? O SENHOR ESTÁ ME OBRIGANDO A DEIXAR DE SER CORTÊS E EDUCADA!

-Por que não Angola, Moçambique, ou outra colônia?

-Em Angola e em Moçambique é muito escuro a noite, e como você sabe, deve haver contraste entre o céu e seus habitantes, por questões de etiqueta. – Essa foi uma das frases que também foi retirada de todas as fontes, para conservar a imagem conservadora da Rainha. Porém, os historiadores se deram ao trabalho de fazer transparecer sutilmente esse fato nas entrelinhas.

-Ah, claro... certo, certo. – disse dom João, tentando fingir que entendeu.