sexta-feira, 23 de março de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 3


É necessário ler:

Vigésimo Nono, Primeiro do Brasil e Quarto de Portugal.

 Os nobres gostam de pôr nomes espetacularmente gigantescos aos seus filhos por dois motivos: primeiro, por que têm nomes espetacularmente gigantescos que herdaram de seus pais, e odeiam quebrar as tradições; segundo pelo simples prazer de tornar seu filho tão especial a ponto de fazer com que o nome do mesmo não caiba em um RG.

 Filhos de nobres já nascem mimados, ricos, poderosos, e com direito garantido de que vão dominar tudo assim que seus pais baterem as botas.

 Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael  Joaquim Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, além de possuir uma hora e meia de nome que nem ele mesmo decorou, tinha outra coisa em especial: era filho de um príncipe regente, este que governava o primeiro Império Ultramarino do mundo e que estava presente nos quatro cantos do planeta.

Sua mãe, Dona Carlota Joaquina, deu à luz a ele em Queluz; em 12 de outubro de 1798.
Dom Pedro, o “Vigésimo Nono, Primeiro do Brasil e Quarto de Portugal”, como eu o chamo; foi um cara legal. Foi o que se pode dizer, um brasileiro que nasceu do outro lado do Atlântico.

Algumas das características mais marcantes e uma das mais explicitadas nos livros, é o fato dele ser avesso às regras, esperto e espevitado, assim como todo mundo diz ser um típico brasileiro.

 Era um português tão tipicamente brazuca que adorava o Brasil mais até que os próprios brazucas. Quando pequeno, sempre ouviu falar do Brasil e lia folhetos que diziam algo como “Venha para o país tropical, abençoado pelo Rei de Portugal, e bonito pela coroa portuguesa”. Dizem que foi dele a idéia de mudar os dizeres do folheto, dando inspiração para a música do Jorge Ben Jor.

 O pequeno Dom Pedro foi criado em casa - palácio, no caso - educado por religiosos (católicos, não se engane).  Adorava andar a cavalo, escutar e compor músicas, matar aula de vez em quando, e tinha o hábito de fugir do palácio ocasionalmente, para brincar com os meninos pobres não-nobres portugueses; afinal eu também iria, visto que a nobreza é um tanto quanto chata, quando se é acostumado com todo aquele ouro e poder, não é?

 Porém, que fique claro, apesar de todas essas características simpáticas dignas de um pipocão americano, de herói o dito cujo não tinha nada: era rebelde e respondia mal aos mais velhos (até levou alguns puxões de orelha da Rainha da Inglaterra uma vez quando foi tomar um chá), além do fato de detestar seu sotaque, o que é um insulto a todos os lusitanos.
...

 Tinha lá os seus 9 anos de idade, quando recebeu a notícia de seu pai que iriam viajar para o Exterior, por tempo indeterminado.

 Não está escrito, ou pelo menos não visível o suficiente para se ler em algum lugar, que Dom João explicou ao seu filho o que estava acontecendo, e por que eles tinham que abandonar sua querida e amada terra natal. Mas como quem escreve essa história sou eu, foi mais ou menos isso que aconteceu:

-Filho – começou Dom João, tentando ser mais paternal do que de costume, após mandar os criados chamarem o pequeno Pedrinho para a grande sacada onde se encontrava. Ele mesmo poderia ter chamado, Pedrinho estava no aposento ao lado, mas sou quase um rei, pensou, preciso agir como rei, e agir como rei é não usar as pernas.

-Tu sabes quem é Napoleão Bonaparte, não é filho? – disse

-Sei, sei sim. Por quê? – disse Pedrinho.

-Bom, tu sabes então que ele está pressionando meu governo...

-A romper com a Inglaterra. – completou Pedrinho.

-C-Como é que... ? – perguntou Dom João, franzindo a testa.

-Como é que eu sei? Ora, papai, eu leio jornal, sabe? E era meio óbvio que tudo isso ia acontecer, estão falando de Napoleão desde que eu nasci. Desde que se tornou cônsul ele tem uma enorme influência na França, era claro que teria o poder suficiente pra dominar toda a Europa com aquele exército magnífico que ele formou, assim que se auto proclamasse Imperador. E como a Inglaterra é a maior potência econômica por aqui, e o senhor tem acordos inacabáveis com ela, é só somar dois mais dois e descobrir...

-Que são cinco. É, eu também tive essa conversa com a Rainha...

-...e descobrir que Bonaparte não iria conseguir dominá-la tão facilmente, - continuou Pedro, sem dar muita atenção à enorme aptidão matemática do pai - usando recursos externos para forçar o domínio, que no caso foi o Bloqueio, ferrando assim com o senhor.

-E de onde tu tiraste tanta inteligência?

-Talvez da mamãe...

-É, essa é uma boa resposta – disse Dom João, sem entender o sarcasmo.

-Bom, então presumo que vamos para o Brasil, não?

-É, vamos para o Brasil, sim. – disse Dom João, desistindo de perguntar novamente como ele sabia daquilo.