sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 5


É necessário ler:

Necessidades Fisiológicas

Pedrinho ficou maravilhado com a idéia de morar no Brasil. Começou a adorar o Bloqueio Continental e teve vontade de tascar um beijo na boca em Napoleão Bonaparte. Estava finalmente indo para a terra do futebol, do samba e da alegria, embora os três ainda não existissem. A melhor expectativa que tinha era substituir o sotaque enamorado que não fazia seu tipo, pelo famoso carioquês, também inexistente naquela época.

 À partir do momento em que pisou os pés no navio  sentiu que uma nova era de possibilidades se abriam no horizonte, do outro lado do Atlântico. Sentiu algo fervoroso,  algo que o dizia que alguma coisa importante iria acontecer, algo que marcaria para sempre duas nações. Foi ao banheiro, porque percebeu que o que estava sentindo era dor de barriga.

 Na verdade, a idéia que se tinha de banheiro em navio no início do século XIX, é completamente diferente, estranho, e inimaginável nos dias de hoje. Não tenho a mínima idéia de se aquilo era ou não constrangedor à época, pelo fato de serem nobres e pelo fato de ser tão comum fazer aquilo em matéria de embarcações. Mas as “casas de banho” (banheiros) ficavam a céu aberto, no convés – mais especificamente na amurada dos navios – onde a pessoa ia, despia as calças e se curava da dor de barriga.

 Aliás, toda a infraestrutura dos navios era completamente horrível comparada ao que se ia ver 200 anos depois: além das necessidades fisiológicas serem ‘realizadas’ com toda aquela espontaneidade, dando pra se reparar nas eventuais manchas simpáticas nas laterais dos navios, não havia mudas de roupas de baixo (conveniente, já que ninguém podia tomar banho); não havia privacidade alguma (nota-se, já que cagavam pela borda do navio), todos dormiam amontoados, e alguns ainda tinham que dormir no convés, sem nenhum tipo de conforto, sendo molhados ocasionalmente pela água salgada do mar.
Sem contar que, com toda essa gente, - confortavelmente instalada, abrigada e límpida – amontoada num canto só, havia a proliferação de doenças, vírus, pestes e pragas que surgiam de tudo quanto é lugar. Um episódio engraçado nessa viagem foi a infestação de piolhos que houve em um dos navios, obrigando a senhora primeira dama de Portugal e suas filhas, junto com todas as outras mulheres que nele estavam, rasparem a cabeça todinha.

 Além de sofrerem com a falta de higiene e condições de saúde adequadas, sofreram as conseqüências da ganância material, que afinal todo ser humano tem. Na pressa de fugir da guerra e de arrastar todos os pertences, dinheiro e obras de arte que possuíam, se esqueceram da maioria dos mantimentos e víveres necessários pra suportar alguns meses trancafiados em um navio que atravessaria um oceano inteiro – chegando a ter que pegar emprestado dos ingleses.

 10 segundos depois de saber o que precisava fazer pra se livrar daquela dor de barriga perigosíssima, Pedrinho começou a querer arrebentar Napoleão Bonaparte com um taco de beisebol novamente.

...

 A viagem já parecia torturantemente interminável nos primeiros minutos. Mas ia ser muito pior.

 Como as embarcações da época dependiam da forças dos ventos ou correntes marítimas, não havia previsão de chegada – poderia durar menos que o esperado, e mais do que o previsto, fazendo assim com que não existisse nem esperado nem previsto.

Como era muito entediante ficar num navio cheio de gente fedida e igualmente entediada, Pedrinho divertia-se chateando seu pai, perguntando quando chegariam. Este respondia calmamente, todas as vezes que lhe perguntava, ”Não sei”– na verdade ele respondia isso com muita freqüência, pra qualquer pessoa e pra qualquer pergunta, mas tinha carinho especial com Pedrinho, que era o herdeiro do trono.

 Pedrinho e Miguel, junto com Dom João e Dona Maria Louca, viajavam (por segurança dinástica hereditária) juntos na nau capitânia Príncipe Real. Dona Carlota Joaquina e mais quatro princesas velejavam na fragata Alfonso de Albuquerque. A tia e cunhada de Dom João, duas personalidades sem importância que não foram citadas, viajavam na Príncipe do Brasil e, por fim, duas princesas do meio largadas na Rainha de Portugal.

...

 A duradoura viagem começa no dia 29/11/1807, deixando os franceses a ver navios em Portugal.

 O caminho é cabeludo, houve duas tempestades que dispersaram os navios, obrigando a se reagruparem nas duas vezes, em 30/11 e 08/12.

 Avistam a Ilha da Madeira em 11 de dezembro.

 Pedrinho perdeu a noção do tempo, o tédio já virara desespero, e a impaciência uma tortura.

 Finalmente, nos 5 minutos agonizantes antecessores à sua morte, anunciaram terra à vista. O dia era 18 de janeiro de 1808, chegam à costa da atual Bahia, e no dia 22 chegam em Salvador.