sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 6


É necessário ler:

Persuasão

 Salvador foi a primeira capital do Brasil. Fica situada na Bahia, estado regido pelas energias dos orixás e pelo ritmo do Axé inexistente do século XIX.

 Salvador, apesar de seu primeiro âmbito civilizado só começar na década de 1530, foi ocupada por “homens brancos” já em 1510, com a chegada de Diogo Álvares – o Caramuru.

 Fora o filme de Guel Arraes que passa na Globo uma vez por ano e que você já está careca de ver, a história de Salvador é salpicada de revoltas e dominação estrangeira.

 No final do século XVII, a Bahia se torna a maior produtora de açúcar da colônia, o que a torna de suma importância, já que o açúcar era o produto mais exportado do Brasil na época.

 Salvador foi sede colonial em três períodos distintos e complicados dos séculos XVI e XVII, que só existiram para complicar a vida dos estudantes; sede da Repartição Norte da colônia também nos séculos XVI e XVII, também criada para absolutamente nada; e finalmente ‘capital’ do Brasil entre 1621 e 1763.

 O Conde da Ponte (uma espécie de título de nobreza para “governador da capitania hereditária da Bahia”) foi o primeiro a descobrir onde viajara Dom João e o primeiro a ir tratar de assuntos políticos com ele, e é claro, puxar um pouco do seu saco antes que outros fizessem o mesmo. Afinal, ele conseguiu fazer isso tão bem que retardou o desembarque de todos os nobres, ricos e poderosos em dois dias (por que, creio eu, só poderiam sair depois do manda-chuva, no caso, Dom João).

 É, eu vou morrer agora. Pensou Pedrinho, que se sentia em um cárcere privado sem privadas.

 Cinco horas da tarde do dia 24 de janeiro de 1808. Os portugueses desembarcam na cidade cheios de pompa, solenidade, mau cheiro e viroses.

 -Escute o que eu digo, vossa majestade, sua melhor escolha para a capital do seu governo, como eu disse lá dentro, é aqui. Não tenha dúvida. – continuou o conde, tentando tirar proveito da situação, como todo bom político.

-É, sem sombra de dúvida, meu caro – disse Dom João, com um sorriso de orelha a orelha, o que significava que fora fácil e minuciosamente convencido pela lábia do conde.

Pedrinho, que estava enjoado, dolorido e cansado demais pra prestar atenção na conversa entediante e bajuladora que seu pai teve com o conde, ficou repentinamente atônito.

-Como assim aqui? – perguntou, enquanto saía do barco junto com Miguel, atrás dos dois. O conde e Dom João viraram-se, surpresos.

-Ora filho, a Bahia já foi muito importante, e ainda é, visto que a cana-de-açúcar e o algodão são abundantes por aqui. Portanto, eu e o conde pensamos em, ao invés do Rio de Janeiro, que é a sede da colônia há mais de 30 anos, fosse Salvador a capital do reino. Poderíamos fazer grandes coisas por aqui, sabe? – disse Dom João, mas antes que pudesse terminar de explicar sua decisão, que já virara uma sugestão, foi interrompido por Pedrinho.

-Ah, pai, vai dar não. Eu realmente quero ir para o Rio.

-Mas, meu jovem, pense em todas as possibilidades de viver aqui e... – tentou o conde, sem sucesso.

-Ah, papai – disse Pedrinho, contornando as palavras do conde – eu já pensei nas possibilidades de morar na Bahia, e não seriam nada úteis para o reino.

-Nada úteis? Mas do que tu estás a falar, afinal? – perguntou Dom João

-E o senhor ainda pergunta? – disse Pedrinho, persuasivamente maroto – Imagine eu, que tenho um fraco hereditário para ser convencido facilmente com algumas curtas palavras, num canto como esse, onde todo mundo tem um poder de convencimento terrível?

 “Não sei se o senhor sabe da cultura baiana, papai, mas imagine só: eu, um dia, como Rei de Portugal, Brasil e Algarves, governando todo largado, relaxadão numa rede, bebendo água de coco e comendo vatapá. Eu teria visitas regulares de mulheres baianas de vestidos rodados que fazem preces pra orixás, lá no palácio. Agora imagine uma crise financeira terrível, e eu não saiba mais o que fazer, e recorro para as galinhas pretas e às encruzilhadas

 “Imagine também, um dia desses no palácio, e eu resolvo fazer uma festinha e chamo os amigos da capoeira, com os atabaques e berimbaus, cantando paranauê pra Deus e o mundo ouvir”

-Está bem, está bem, certo, tu vencestes. – disse Dom João, vencido e contentado, apesar de não ter compreendido uma palavra que o filho dissera – conde, sinto dizer que os nossos negócios acabaram de ser rompidos, até mais ver. – disse ao Conde da Ponte, que agora roubara o ar atônito de Pedrinho com tanta veemência que dava dó.

 Rio de Janeiro, aí vamos nós, pensou entusiasticamente Pedrinho.

...

No momento em que viu que estavam voltando pro navio, Pedrinho soltou uma interjeição de horror, devia ter ficado quieto.

E devia mesmo, a liberdade que estava ali, tão próxima para ser saboreada, foi levada para um longínquo tempo futuro, que seria um mês e meio depois. Os enjôos, cansaço e piolhos se intensificaram nesses um mês e meio.

...

Cidade maravilhosa,
Cheia de encantos mil!
Cidade maravilhosa,
Coração do meu Brasil!

Com certeza você conhece essa marchinha de carnaval dos anos 30. Logicamente, por ser dos anos 30, não existia em 1808, mas expressava perfeitamente o que Pedrinho sentia ao cruzar o litoral do Brasil, em busca do Rio de Janeiro maravilhoso e cheio de encantos, como dizia a marchinha que ele não conhecia.

-Estou doido para falar carioquês! – exclamou Pedrinho para Miguel, mas este não pode responder.

-Cario o quê? – perguntou Dom João, admirado.

-Isso mesmo papai, carioquês. É como eles chamam o sotaque dos cariocas – explicou Pedro.

-Ah, sim... E o que tu vês de tão especial nesse sotaque adocicado que ficam a falar por estas terras?

-Ora, eu não tenho nada contra esse sotaque, papai... Pensei, se vou viver por aqui, tenho que falar como os daqui, não é verdade?

-Certo. – disse Dom João, vencido pela segunda vez – Mas ainda não sei o que você vê nessas terras...

Tinham acabado de parar, e como Pedrinho, Miguel e Dom João estavam no convés, dava pra ver a cidade maravilhosa de pertinho.

-Está fedendo. – comentou Dom João

-Pois é, o senhor devia fazer algo sobre isso, as pessoas são pobres e fétidas, portanto nã...

-Não, alguém realmente está com sérios problemas intestinais, devíamos sair o mais depressa que possível daqui – sentenciou Dom João, com o nariz tapado.
Desembarcaram todos, no dia 8 de março de 1808.

...

Assim que se libertaram do cárcere, tiveram tempo o suficiente para perceber que não tinham ao menos onde se encarcerar.

Portanto, pensou Dom João, podemos dormir por aqui até construírem um palácio decente pra gente. E com “por aqui” Dom João pensava na sarjeta.

-Nem pense nisso, querido. – Disse Dona Carlota Joaquina, que acabara de se materializar ao lado do esposo e filhos, juntamente com todo o resto da família (menos Dona Maria Louca, a qual se incumbiu de permanecer na nau, obrigando os marinheiros a levá-la de volta a Portugal por que se esquecera de um vestido).

-O-oque? – gaguejou Dom João.

-Por acaso acha que vamos dormir ao relento, num lugar como esse? Podemos ser assaltados!

-Mas como é que...

-Querido, vamos pegar as casas deles. Pronto.

-Hã? – exclamou Maria Teresa, a filha mais velha – Mãe, essas casas são desprezíveis!

-Se prefere dormir no chão, para mim não há problema – retrucou Dona Carlota.

-Tá, está bem. – murmurou Maria, indignada

Dom João sentiu que alguma coisa estava lhe faltando, algo muito importante, uma lacuna vazia que tinha que preencher. De repente se lembrou, então, que ele era a autoridade por ali, e que também podia persuadir pessoas.

-Eh, por favor, pode nos deixar ficar com sua casa? – disse ele, após bater numa porta e falar ao homem que surgira atrás dela.

-E por que eu faria isso? – disse o homem.

-Por que eu sou João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança, Príncipe Regente de Portugal. – era o mais persuasivo que ele conseguia ser, e aparentemente era o que bastava.