sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 9

É necessário ler:

A Aposta do Troca-Troca

Os livros nos dizem que Dom Pedro I era contra à escravidão, o que era uma ideia muito à frente do seu tempo. Não nos dizem, porém, por que exatamente ele tinha essa ideia, que era incabivelmente a frente do seu tempo. Se dizem, estou agora dizendo que não dizem, por que eu mesmo vou dizer. Entende o que eu digo?

A ideia de viver em uma imensa mansão como Quinta da Boa Vista, na cidade maravilhosa, comendo, bebendo e fazendo o que você quiser, com a desculpa de que é o cara que vai mandar na bagaça toda inevitavelmente depois que seu pai bater as botas, é completamente tentadora, não acha?

Como era perfeitamente normal e cômodo ver que tudo estava bem, que não havia motivos pra se preocupar, e o melhor, ter gente disponível que fizesse tudo o que fosse possível pra continuar assim, Pedrinho não notara que essa gente que o servia somente o servia, e que eles todos eram da mesma cor, raça e infelicidade. Afinal, a mentalidade esperta, enérgica e serelepe da infância acaba por sumir e dar lugar a um acomodamento na adolescência, que se caracteriza pela ausência de perguntas curiosas e a coçação de saco nas longas tardes de domingo.

A tarde em questão, que podia muito bem ser uma noite ou uma bela manhã, foi num domingo não especificado de 1809, o lugar era, naturalmente, Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

Pedrinho estava, como de costume, comendo arroz com feijão e carne de porco na sacada de seu suntuoso aposento, coçando o saco. Até que veio um homem, uma daquelas pessoas que o servia, e timidamente colocou um número grande de pacotes medianos e retangulares em cima da extensa mesa que Pedrinho estava sentado. Sim, Pedrinho estava sentado na mesa, por que, segundo ele, cadeiras eram para fracos.

-Que baguio é esse? – perguntou, exercitando furtivamente seu carioquês.

-Erm... folhas de chá preto, senhor. Cortesia da... da Rainha da Inglaterra. – Respondeu a pessoa que o servia, desconcertado, sabe-se lá o motivo.

-Cortesia... Sei... Valeu aí, velho – disse Pedrinho.

-Imagine, senhor, é minha obrigação atender a todas as suas necessidades – respondeu a pessoa que o servia, e já ia saindo.

Até que aconteceu uma coisa extraordinariamente surpreendente na história do Brasil, o que não acontecia há mais de um ano.

-Por quê? – perguntou Pedrinho, tentando não franzir a testa, o que era realmente difícil, estava ficando enferrujado nessas coisas, sabe como é, um ano sem perguntar nada.

-Mmmm? – Disse a pessoa que o servia, distraído, dando meia-volta e olhando Pedrinho com cara de surpresa. – Por que a Rainha da Inglaterra mandou folhas de chá preto? São pra fazer chá preto, senhor. – Disse a pessoa que o servia.

-Tipo, por que você faz essas coisa aí pra mim, tipo, faz um tempão já  que tu faz isso, e eu não sei por que, sacou?

-Sa... saquei, senhor, saquei – respondeu a pessoa que o servia, que não tinha sacado.

-Então me explica aí, mano.

- Quer que eu explique por que eu atendo a todas as suas necessidades? – perguntou a pessoa que atendia a todas as necessidades dele.

-É.

-Eu sou...

- ... uma secretária?

 -... um escravo...

-Ah! Um escravo! Pika das Galáxias! – disse Pedrinho, que na pausa que se seguiu, percebeu que ser um escravo não era Pika das Galáxias.

-O que é um escravo? – perguntou, enfim.

-Um... um escravo? Um escravo é uma pessoa que pertence a outra pessoa, como... como um relógio digital.

-Um relógio digital?

-É, um relógio digital à prova d’água. Você compra numa feira onde tem milhares de outros relógios digitais iguais. Usa e abusa da à prova d’água dele até ele pifar. Aí você larga num canto e deixa lá até esquecer dele ou ele simplesmente sumir de vez e você nunca mais encontrá-lo de novo. – explicou o escravo.

-Hum, então escravos se comparam a relógios digitais? – perguntou Pedrinho.

-Basicamente, sim. – respondeu o escravo.

-E qual a diferença?

-Não sabemos ver as horas.

-Ah, ok.

Houve uma longa pausa onde Pedrinho ficou assoviando só pelo simples prazer de assoviar, e o escravo ficou de pé olhando Pedrinho com cara de “mais alguma coisa?”, pelo simples desprazer de que era obrigado a fazer aquilo.

-E... Vocês acham isso difícil, é? – perguntou Pedrinho.

-Ver as horas?

-Não, ser escravo.– disse Pedrinho.

-Ah, sim, extremamente difícil, senhor. – respondeu o escravo.

-Pffffff, qualquer um pode ser um relógio digital – caçoou Pedrinho

-Escravo, senhor.

-Tá, que seja, qualquer um pode ser um escravo, é tão fácil quanto ver as horas.

-Fico feliz que o senhor ache isso, senhor. – disse o escravo, que pela quantidade de “senhor” numa mesma frase, não havia ficado feliz com que Pedrinho achava.

-Haha, vamo fazer um negócio legal? E se eu fosse escravo por um dia, hem? Que você acha? – propôs Pedrinho, com ar de menino maroto.

-Ah, não sei, senhor, o trabalho é muito duro, não sei se o senhor agüentaria – disse o escravo, que pela quantidade de “senhor” estava instigando Pedrinho indiretamente, o que funcionou.

-Uma semana. – Disse Pedrinho.

-Um mês. – Disse o escravo.

-No Palácio.

-No campo.

-No meu aposento.

-Na senzala.

-Fechado.
...
E foi assim que Pedrinho começou a trabalhar secretamente como escravo. Afinal, fez isso tão bem que nenhum historiador nem sequer soube disso.

As regras da aposta eram as seguintes: Pedrinho viajaria para o interior do Rio de Janeiro, trabalharia no campo por um mês, dormiria em senzalas, comeria e beberia e seria tratado como qualquer outro escravo, e sofreria castigos também iguais a qualquer outro escravo; enquanto o escravo-que-o-servia ficava em seu lugar, comendo, bebendo, dormindo e sendo Pedrinho pelos próximos 30 dias, e, se alguém da Família perguntasse, a desculpa seria a escassez de protetor solar na praia de Copacabana.

A coisa acabou por Pedrinho não aceitar a comida que serviram pro almoço, pouco antes dele começar a trabalhar, e assim voltando à Quinta da Boa Vista, menos de 24 horas depois.

-Rapaz, como é brabo isso hem? – disse ele ao escravo-que-o-servia

-Pois é. – concordou o escravo, reprimindo sua vontade de fazer Pedrinho engolir folhas de chá preto.