segunda-feira, 18 de junho de 2012

Concorrência Local

 Obs.: A crônica a seguir é fictícia e escrita por mim 
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Meu bairro é o lugar mais propenso a entrar para o Guinness Book como “Maior concentração de bares e mercearias num raio de 2 quilômetros do mundo”. Não se contentando somente com um bar ou uma mercearia, os comerciantes têm a brilhante e original idéia de juntar as duas coisas, criando os originalíssimos “Bar e Mercearia”.

 Lugares medonhos esses. É onde se encontram juntos sinuca, pôsteres publicitários de marca de cerveja, alimentos industrializados, doces caseiros, e bêbados confabulando com a própria embriaguez.

 A cada esquina pode-se ver um bar, uma mercearia, ou um bar e mercearia. Chega a ser constrangedor. Os únicos que não acham isso constrangedor, mas motivo de contenda, são os comerciantes donos de bares. Seu Tijuca, Seu Alceu, Rivelino e Caneca são os donos de bar mais velhos do bairro e os que mais sofrem com a concorrência.

 “Esses mais novos que chegaram depois, não sabem como cuidar de um bar”, diz Seu Alceu, homem antigo e conservador, dono de um Bar de esquina da Rua Três com Avenida Sete.

 “Esses velhos caducos não sabem como conquistar a clientela”, diz Seu Tijuca, carioca e flamenguista dono de um Bar na outra ponta da Avenida Sete.

 “Esses velhos vivem copiando minhas promoções”, diz Rivelino, primeiro a fazer um letreiro “Bar e Mercearia” do bairro. Dono de um Bar e Mercearia na Rua Cinco.

 “Ô juizão, falta dentro da área é pênalti!”, diz Caneca, paulistano e vascaíno de meia-idade dono de uma pequena Mercearia na Rua Guerra e Paz.

 Desde sempre esses quatro senhores disputam a escassa quantidade de clientes do bairro. Quando um consegue um número considerado estratosférico em cima do outro, se gaba por um mês, sendo que esse número estratosférico, na maioria das vezes, não passa de 20 clientes por semana.

 Não que o bairro seja pequeno ou morem poucas pessoas nele. Na verdade é um bairro grande e populoso, constituído de um grande número de alcoólatras. O problema é a distância. Entre a porta da sala, a garagem e a rua existe uma distância muito pequena, de forma que os alcoólatras achem mais fácil pegar o carro e dirigir até o centro da cidade à comprar na Mercearia da esquina.

 A situação veio a ficar pior, quando os quatro senhores descobriram a construção de um Mini Mercado no bairro, filiado à uma rede de Mini Mercados com sede no centro da cidade, cujo slogan era “Quanto mais Mini, mais Mercado é”.

 Só o slogan já parecia uma ameaça aos negócios dos nossos velhos senhores, por isso cada um, como homens maduros e inteligentes que eram, teve sua própria reação madura e inteligente quanto à questão. Seu Alceu ficou mais mal-humorado, Caneca entrou em depressão, Seu Tijuca dava fortes indícios de ter contraído a síndrome do pânico, e Rivelino passou a tomar quantidades diárias indizíveis de café.

 Conforme o tempo ia passando, melhor o mercado ficava, e mais deprimente ficava a situação dos nossos velhos senhores. Quando finalmente chegou o dia da grande inauguração, com faixas de promoções e descontos inacreditáveis nas portas, paredes e letreiros do Mini Mercado, o resultado também foi inacreditável. Meia dúzia de pessoas compareceram à inauguração.

 O gerente reagiu: fez comerciais apelativos no canal local,espalhou folhetos e cartazes pelo bairro, contratou cantores para fazerem shows com entrada franca e, como última alternativa, gritou pelo megafone promoções do tipo “É só até amanhã!”, das quais o “amanhã” virou “É só até semana que vem!” , depois “mês que vem!”. Acabou por desistir enquanto ainda lhe restava dignidade. A filial do Mini Mercado foi fechada, e nossos velhos senhores ficaram estupefatos.

 “Mas como é possível!”, “Eu não creio!”, “Como assim?”, “O que eu perdi?”.

Ao final da tarde de uma sexta-feira, dois dias depois do fechamento do Mini Mercado, estavam reunidos Seu Tijuca, Rivelino e Caneca no bar do Seu Alceu, especulando qual seria a causa de tamanha frustração do negócio da filial, quando um homem de meia-idade e barriga de chope dentro de um carro parou em frente ao bar para cumprimentá-los.

 -Opa, e aí Seu Alceu, belezera?

 -Opa, tudo nos conformes. Onde é que vai hem?

 -Ah, eu vou ali naquele Mini Mercado do centro, tem cerveja na promoção lá.

 Há uma espécie de mitologia de consentimento geral, ao estilo “a grama do vizinho é sempre mais verde” de que quanto mais longe é o lugar que você vai, melhor será o fruto da peregrinação. Isso é bíblico.