sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Rebelde Independente - Capítulo 10

Pois é, não posto mais capítulos de "O Rebelde Independente" há quase dois meses. Ninguém efetivamente reclamou, mas tenho que explicar que pra fazer esse tipo de texto (acho que se chama "Ficção Histórica") tem que pesquisar pra cacete pra não errar algum detalhe. Fora o esquecimento, falta de compromisso, procrastinação e preguiça dos diabos. Mas aí está. Divirta-se.

É necessário ler:


Rinha de Ibéricos Parte II

A Espanha estava em polvorosa naquele dia. O povo espanhol, totalmente traído e jogado pra escanteio, estava protestando, quase que inutilmente, contra Napoleão Bonaparte.

Como ninguém nunca espera que um anão arrombe a porta da frente da sua casa e comece a dar palpites sobre o lustra-móveis que você usa, o pessoal ficou revoltado.

Com o rei Carlos IV abdicado, preso, e com um volume malcheiroso enormemente constrangedor nas suas calças, Napoleão conseguiu dominar a Espanha. Ou assim esperava que tivesse feito.

A estratégia de Napoleão (dentre suas variantes, muito usada hoje em dia pelos parlamentares de Brasília) era nomear um parente seu para governar os territórios por ele, para poupar tempo, dinheiro e burlar burocracias aristocráticas.

No caso da Espanha foi seu irmão, José Bonaparte, 20 centímetros mais alto e 60% mais bonito.

Isso era um tiro no pé. Bolas, há uma lei de conhecimento geral de que o governante de qualquer país europeu tem de ser, invariavelmente, extremamente e inescrupulosamente feio.

O raciocínio era o seguinte: “Mas que diabos, se você tomou o governo à força, tenha ao menos a decência de governar você mesmo”.

O protesto estava insustentável. Até as paredes do palácio estavam fracas com o estardalhaço.

-Mas o que diabos aquele bando de gente subalterna pensa que está fazendo? – vociferou Napoleão Bonaparte.

-Protestando, eu acho. – Respondeu José Bonaparte.

-Eu sei o que eles estão fazendo, seu mentecapto! – vociferou ainda mais alto Napoleão.

-Só pra registrar a idéia. – disse José.

-Eu vou ter que tomar uma medida drástica. – concluiu Napoleão.

-Sua especialidade... – comentou José.

-Cale a boca! – vociferou outra vez Napoleão.

Realmente era sua especialidade. Não se conformando com uma arma, mandou detonar não um, mas sete canhões contra a multidão. Funcionou.

-Sou o cara ou não sou? – se gabou Napoleão.

-Não era o que papai dizia... – provocou José.

-Ora, cale a boca! – vociferou Napoleão Bonaparte. Vociferar também era sua especialidade.

Porém, contrariando todas as probabilidades, os que sobreviveram ao bombardeio dos canhões se organizaram, teimosa, suicida e imbecilmente. Formando forças de resistência independentes em vários pontos do país, o povo espanhol se encarregou de lutar pessoalmente contra os franceses.

-Antes que você pergunte, estão formando forças de resistência independentes em vários pontos do país para lutar contra a gente – informou José. – Quer que eu cuide disso?

-Não. Meu lema é: se quer uma boa guerra imperialista sangrenta, faça a guerra imperialista sangrenta você mesmo.

-Boa sorte.

Ele precisou, afinal.
...

Já em Portugal o clima estava tenso. Para Jean-Andoche Junot, a idéia de ter ouvido sua mãe e seguido a carreira de balé em vez da militar estava cada vez mais “ela estava certa” na sua cabeça. Arthur Wellesley estava empreitando uma avassaladora campanha anglo-portuguesa contra os franceses. A guerra estava irritantemente equilibrada.

Junot precisava urgentemente de uma aspirina. Havia gente correndo, havia gente matando, havia gente morrendo, por todos os lados. Tinha se preparado psicologicamente para isso: pensava em chegar, matar um ou dois velhos gordos e voltar pra casa, mas isso não estava acontecendo. Era frustrante. Por que os malditos velhos gordos não paravam de matar os seus soldados e voltavam pra casa comer bacalhau? Por que as malditas senhoras com seus chalés e coques na cabeça simplesmente não iam pra casa fazer crochê? A situação era sobrenatural.

Nas batalhas de Roliça e Vimeiro (respectivamente, 17 e 21 de Agosto de 1808), 2 mil franceses foram pro espaço. Na ocasião, o respeitoso General saiu dando demi-pliés e sissones en avant vestindo um tutu, calça de malha e sapatilhas de balé.

Na falta de um General à altura de Junot, Napoleão escolheu o que pensava ser um homem menos propenso a fugir da guerra vestindo tutus e calças de malha. Homem firme, homem forte, corajoso, fiel, feio, desonesto, completo imbecil, de cabeça chata e com Jean no meio do nome, como não poderia deixar de ser. Escolheu o Duque da Dalmácia, futuro Primeiro-Ministro da França, o marechal Nicolas Jean-de-Dieu Soult.

Com Marechal Soult, deu-se início à Segunda Invasão Francesa em Portugal, a fevereiro de 1809.