quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Metrô Linha 743



Ele ia andando pela rua meio apressado, sabia que tava sendo vigiado. Cheguei para ele e disse: 
-Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
Ele disse: 
-Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado, dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado! - disse - o prato mais caro do melhor banquete é aquele se come cabeça de gente que pensa, e os canibais de cabeça descobrem aqueles que pensam porque, quem pensa, pensa melhor parado. Desculpe minha pressa, fingindo atrasado. Trabalho em cartório mas sou escritor, perdi minha pena nem sei qual foi o mês... Metrô linha 743...
O homem apressado me deixou e saiu voando, aí eu me encostei num poste e fiquei fumando.
Três outros chegaram com pistolas na mão. Um gritou: 
-Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos!
Eu disse: 
-Claro, pois não, mas o que é que eu fiz? Se é documento eu tenho aqui...
O outro disse: 
-Não interessa, pouco importa, fique aí, eu quero é saber o que você estava pensando. Eu avalio o preço me baseando no nível mental que você anda por aí usando, aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando.
Minha cabeça caída, solta no chão, eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez... Metrô linha 743.
Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha e eu era agora um cérebro, um cérebro vivo à vinagrete! Meu cérebro logo pensou: "que seja, mas nunca fui tiete!". Fui posto à mesa com mais dois, eram três pratos raros, e foi o maître que pôs. 
Senti horror ao ser comido com desejo por um senhor alinhado. Meu último pedaço, antes de ser engolido ainda pensou grilado:
-Quem será este desgraçado dono desta zorra toda?
Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais, mas o negócio aqui tá muito bandeira... Dá bandeira demais meu Deus! Cuidado brother, cuidado sábio senhor, é um conselho sério pra vocês:
Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês... Ah! Metrô linha 743...
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Muitos não entendem a analogia intrínseca nesta obra de arte do mestre Raul Seixas. Seu cérebro pode estar sendo devorado, e você não se pergunta quem será o desgraçado dono da zorra toda. Pense nisso. Se conseguir, claro.