sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A Árvore da Vida

Ontem eu sofri um acidente de bicicleta.
Às seis horas da tarde, eu estava descendo uma ladeira, à caminho de casa, quando perdi o freio. No fim dessa ladeira, tem um barranco cheio de árvores, arbustos e pedras, e no fundo tem um riacho, também cheio de pedras. À minha esquerda também tinha umas plantas e árvores que atrapalharam a minha visão, e não vi o carro preto que vinha em minha direção, pela esquerda. Na velocidade em que eu estava, tinha certeza que não conseguiria virar, nem mesmo se o carro não estivesse vindo.

O carro só não me atropelou porque freou à tempo, mas não consegui virar o suficiente, e por isso fui com tudo em direção ao barranco... sorte que eu me estabaquei em uma árvore antes que pudesse ir com bicicleta e tudo barranco à baixo...

A dor foi forte, muito forte, forte mesmo, forte pra caralho, bati  o pescoço, a lateral direita da cabeça, o ombro e o joelho direito na árvore, tudo de uma vez. Me disseram depois que a árvore, que era alta, balançou durante vários segundos depois da batida.

Caí para a direita, arfando, do lado da bicicleta. Vi um homem descendo a rua e gritando "Ai meu Deus! Ai meu Deus!", depois percebi outras pessoas descendo depressa pra me socorrer, aí abaixei a cabeça, me deitando, porque a dor era muito forte.

O homem do carro também desceu pra me socorrer, e em pouco tempo eu estava todo rodeado de gente, me perguntando se eu estava bem, onde eu morava, nome da minha mãe, telefone da minha mãe, se eu estava sentindo dor, se eu era crente, se eu tinha perdido o freio, etc. Chamaram uma ambulância, que chegou até rápido. 

Os paramédicos pediram pra eu apertar a mão deles, tocaram no meu ombro, dobraram minha perna (PUTA QUE PARIU!), me imobilizaram, botaram na maca, e daquele momento em diante meu mundo visível se resumiu ao céu, à rostos e aos tetos da ambulância e do hospital.  Minha mãe chegou, (desesperada, claro) nessa hora.

O incômodo no joelho era realmente muito forte, perguntaram (mais de uma vez) se poderiam cortar minha calça pra ver como estava. E é óbvio, claro, evidente, é lógico que eu não deixei cortar a calça. Acha, cortar a calça? Meu joelho que se foda. Oras. (Tô brincando xD Se a dor não fosse suportável, poderiam até tacar fogo na calça, de bouas).

No hospital, outra sabatina de perguntas: nome, endereço, telefone, nome dos pais, RG, sente dor onde, dói quando faço isso, posso cortar a calça, etc. 
Conversei com os médicos, com a minha mãe, ela comentou o susto que levou quando foram avisar ela. Tiraram a minha calça pra ver o joelho, e colocaram um lençol em cima.

Me levaram pra um corredor onde fiquei esperando pelo raio-x, curiosamente, bem embaixo de uma imagem de Jesus crucificado, com coroa de espinhos, todo ensanguentado, olhando direto pra mim, como quem dissesse "Machucou aí, fera? E pregos, cê manja?". 

Fiz o raio-x, e felizmente, não tinha nenhum osso quebrado, o médico disse que não poderia saber se havia algum dano muscular, mas disse que eu estava bem, receitou um remédio, pediu que me colocassem faixas, e me liberou. Mas ainda estou todo dolorido.

Passando por essa experiência, que certamente foi o maior perigo que eu  já passei, me fez perceber como a linha entre a vida e a morte é tênue. Inclusive foi o que mais se comentou, entre as pessoas que me acudiram, os médicos e a minha família.

Se em toda aquela situação, o motorista tivesse demorado um instante a mais para me perceber ou para frear, eu estaria na melhor das hipóteses numa UTI;
se eu estivesse um tanto mais rápido, poderia ter quebrado um braço ou uma perna, uma costela, a cabeça, ou ainda;
se eu tivesse virado a bicicleta alguns graus a mais para a esquerda ou para a direita, eu teria ido parar numa árvore cheia de espinhos, vizinha à que eu bati; ou teria descarrilhado barranco abaixo, onde tem mais árvores, buracos, pedras e o riacho - poderia ter batido a cabeça, quebrado o pescoço, poderia ter capotado com a bicicleta e também... 
Poderia ter morrido em toda e qualquer uma dessas situações.

Mas eu estou vivo. E inteiro. 

Portanto é óbvio que eu ouvi coisas como "Deus tem um plano na sua vida", "Deus te salvou", "Deus te provou que ele existe" e, como já dito, o "machucou aí fera?" de Jesus.

Eu poderia estar morto. Sim. Mas quem me disse isso também poderia estar morto. Você que está lendo também poderia estar morto. Na verdade, todos nós poderíamos estar mortos agora. A morte acontece a todo momento, em várias formas, de diversas maneiras, com muitas pessoas, em todo o lugar. Eu não morri, mas e quanto as pessoas que sofrem acidentes e morrem todos os dias? 

Minha avó foi quem disse primeiro que Deus fez isso pra me provar que existe. Mas é uma inocência tremenda achar que eu vou amar um Deus que provocaria um acidente com risco de morte, só pra dizer depois que me "salvou". Que tipo de Deus louco por atenção seria esse? Eu prefiro acreditar que ele não existe!

Não é que eu não tenha medo da morte, eu morro de medo da morte. Mas ela acontece com tudo e todos, por que eu deveria me sentir especial o suficiente pra pensar que morrer é inaceitável, ou pior, pra pensar que um Ser Supremo se importaria tanto comigo pra me salvar da morte, e desprezaria tantas outras pessoas pra deixar de salvar as mesmas?

Eu agradeço por estar vivo, estou feliz por estar vivo, e agradeço mais ainda as coincidências, causas e condições que me levaram a enfiar a cara naquela árvore, daquela maneira, com essa dor tremenda, porque, ou era isso, ou algo pior.

Agradeço à árvore,  a constante, prevalecente e não conflitante Árvore da Vida.