quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Crescer

Quando eu era menor, eu comia só o recheio das bolachas. Geralmente jogava as bolachas sem recheio atrás da cama, onde achava que houvesse um buraco negro que as levasse pra um lugar onde elas nunca mais seriam vistas por ninguém, e por 'ninguém' eu quero dizer a minha mãe. Aí um dia ela descobriu as bolachas embaixo da cama, e eu subitamente percebi que, além de não haver um buraco negro embaixo de todas as camas, a minha mãe limpava a casa todos os dias. Foi um choque e tanto. Depois de um tempo eu passei a comer as bolachas sem tirar o recheio, e me sentia muito orgulhoso por isso. Me sentia hominho. 

Uma vez na 3ª série eu soube explicar na frente da classe a diferença entre um quadrado e um retângulo. Me senti bastante hominho.

Tive uma babá que me chamava de "velhinho" quando eu tinha 5 anos, porque eu "falava difícil" (eu já sabia falar inconstitucionalissimamente), e tinha fios de cabelos brancos. Então, eu me sentia hominho.

Na minha infância nunca gostei de falar sobre carros, motos, videogames, pipas, futebol, e outros assuntos supérfluos. Me sentia muito hominho comparado às outras crianças.

Aprendi a andar de bicicleta quando eu tinha uns 11 anos, mas só porque meu irmão mais novo ganhou uma e eu me senti ameaçado pela ideia de ele aprender a andar antes de mim. Não queria que ele fosse mais hominho do que eu.

Maturidade é uma perseguição. Quando você pensa que a têm, está sendo enganado. Afinal, o que é maturidade? De onde ela vem? Como se adquire? 

Na minha pré-adolescência, as pessoas da minha idade (12, 13 anos) estavam extremamente preocupadas em parecerem mais maduras. Beijar na boca era o divisor de águas. Pegar um monte então, era o bilhete dourado para a maturidade inquestionável. Eu achava isso tudo muito ridículo. Ainda acho. 

Inventamos um monte de regras e conceitos e enganos e atitudes e ilusões que definem o que é maturidade. Gostamos disso. Gostamos de inventar maneiras de sermos mais maduros. Gostamos de pensar que de alguma forma estamos entendendo algo por completo e e agindo da melhor maneira possível, a maneira mais 'crescida'. Mesmo estando terrivelmente apavorados pela ideia de não estar pegando a mensagem como deveria. Mesmo quando esse 'agir de maneira crescida' ainda não é possível, já que não se cresceu o suficiente. Não saber se já está pronto é a maior fonte de insegurança de todos os tempos.

Hoje, a maneira de eu me sentir maduro é escrevendo textos pra internet. Como vocês pode facilmente concluir. Uma ilusão tão grande assim como ser o pegador da turma.

Em todas as fases da vida, a gente pensa que está evoluindo pra se chegar a algum lugar. Mas nunca sabemos realmente quando estamos prontos. Porque nunca estamos. Estamos sempre evoluindo, e justamente por isso a ideia de se 'chegar a algum lugar' não faz o menor sentido. Nunca seremos maduros, estamos sempre verdes, por isso nada parece mudar.


"Tem gente que diz por aí que quanto mais a gente vive mais velho a gente fica.
Isso é uma bobagem.

Pra que alguém quanto mais vivesse, mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando. E isso não acontece com gente. Isso acontece com fogão, sapato, geladeira...

Fogão, sapato e geladeira é que nascem prontos e vão se gastando.

A gente nasce não-pronto e vai se fazendo." 

-Mario Sergio Cortella
Estamos nos fazendo. Todo mundo, em todas as idades. Não existe uma linha demarcada dizendo "daqui pra frente, você é adulto, sábio e maduro, e continuará sendo assim pro resto da vida". 
Em que parte da vida essa linha iria ficar? No primeiro emprego? Maioridade penal? Entrada na faculdade? Casamento? Primeiro filho? Velhice? Comer as bolachas sem tirar o recheio?

Tenho amigos de infância que enxergam o mundo e pensam exatamente do mesmo modo que pensavam há 10 anos atrás. Vejo pessoas adultas ainda preocupadas em garantir sua maturidade ilusória fundamentados na distorcida sapiência de que "amanhã eu posso não estar mais entre os vivos". Vejo avôs e bisavôs que, na sua ânsia de parecerem hominhos crescidos de cabelos brancos, explicam sua visão torta do mundo com o orgulho e convicção de quem explica que um quadrado tem os quatro lados iguais.

E em meio deles eu me vejo. E então acontece o cúmulo da auto-análise: não sou nada melhor do que eles. Sou imaturo, infantil, superficial. Só que em um grau mais avançado de estupidez e engano, por achar que sou maduro, adulto, e pertinente. 





"Quando você crescer..... Tudo igual. Vai ser exatamente o mesmo."