quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Síndrome da Irracionalidade Voluntária


Parece que existe uma espécie de feromônio onipresente, ou egrégora universal de alta potência, que dissemina o conceito de que discutir ideias e opiniões é algo altamente indesejável, maçante, e muitas vezes, proibido.

Debater, isto é, ter contato com diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto, mostrar o seu, criticar, ser criticado, mudar de ideia, mudar a ideia do outro, é algo largamente visto de maneira quase pecaminosa pelas pessoas comuns. Pra quê, Bruno? - me dizem. Por que você quer mudar a cabeça do outro? Por que você quer mudar as coisas da maneira que são? Você tem probleminhas? Não te deram atenção suficiente quando era pequeno? Isso geralmente seguido de "vá arranjar o que fazer" e variantes.

Gotcha! Descobriram o problema. Aparentemente, eu não tenho o que fazer, sou um desocupado. Estou sofrendo desde quando me entendo por gente de uma profunda falta de entretenimento mental, ou pelo menos, da mínima noção do que é ser útil, tipo lavar a louça. Ah! Esse é o problema. Exato. 

É comigo o defeito, então? É o mais lógico, não? Se eu sou o único que está incomodado, o único que pensa diferente, e consequentemente, o único pé no saco incomodante, então os outros devem estar certos. A voz do povo é a voz de Deus.

Entretanto, devo pontuar que sempre achei que  houvesse alguma coisa muito esquisita, ou inadequada, idiota, ou pelo menos terrivelmente sombria na frase "A voz do povo é a voz de Deus". Primeiro porque, se Deus não tem voz própria, quem é que fica falando na orelha dos evangélicos? Segundo, de onde vem esse consenso? De onde as pessoas tiram as ideias que têm, por quê elas pensam assim, por que não querem falar a respeito, por que elas têm disposição pra tudo - mas tem essa preguiça absurda de pensar?

De onde vêm nossos padrões? Estamos acostumados a agir de tal modo por quê? Por que não questionamos as regras? 

Isso é um complicado problema de perspectiva de vida. Que você não tem. E que talvez eu tenha em demasia. As regras e convenções, as tradições e costumes vigentes, as opiniões e visões presentes, não são coisas que devem ser adotadas cegamente - são coisas que precisam ser revistas. Remodeladas. Adaptadas. E mais outros sinônimos de tom urgente.

Por quê? Porque tudo está em constante fluxo, nada está estagnado. O mundo não nasceu perfeito. Nem as pessoas. Mas nós temos a oportunidade de revisar e construir o que queremos, mesmo que seja construir a nós mesmos.
E debater é a forma de estar presente, ativo nessas revisões. E isso não é "chato", "pedante", "cansativo", dentre outros sinônimos de tom apático e modorrento.

É incrível! 

Outra pessoa pensa diferente de mim, oh! Que oportunidade! A primeira vista, ela está terrivelmente enganada, de fato, ela parece um pouco estúpida se for pensar a respeito, mas vai que ela está certa? Eu preciso conferir. 

Um debate não é uma briga. Não é um confronto de inimigos. É um conflito entre ideias. As pessoas dizem que devemos "respeitar a opinião do outro" pra justificar a própria preguiça e falta de visão das coisas, quando na verdade, o que elas estão se referindo não passa nem perto do que seja um debate. Num debate a gente respeita a opinião do outro, respeita tanto, a ponto de discutirmos sobre ela. Mas a pessoa pode estar tão apegada à sua ideia e sua visão, que leva pro lado pessoal - e aí vira uma briga, o que todos querem evitar.

Um debate só deveria ser iniciado quando as pessoas em questão estiverem dispostas a considerar a inaceitável possibilidade de estarem erradas, ao passo que põem à prova a veracidade de suas certezas. Porque uma certeza que não é colocada a prova, é só um capricho do egocentrismo daquele que não a quer testar.

Por isso eu tenho debates de tom forte, apaixonado, convicto, eloquente. Porque as minhas opiniões estão sendo constantemente testadas, confrontadas, e isso me dá confiança, e um tom especial de certeza, um certo orgulho e uma pitada de ego. Admito! Mas minhas opiniões não nasceram prontas, ainda não estão prontas, e minha certeza não é motivo pra diminuir a sua. Eu adoro quando consigo expor todos os meus argumentos e convencer alguém, mas adoro em dobro quando me mostram um ângulo que eu não tinha visto antes, desmoronam toda a minha certeza, me deixando surpreso, impressionado, admirado, e em estado de êxtase. 

Êxtase! Sim! Essa é a palavra. Eu penso "que incrível, hora de começar tudo de novo!". 
Porque lá no fundo, sou um idealista anarquista. Tenho uma relação de amor e ódio com as minhas certezas. "Por que está demorando tanto pra alguém sacudir esse cenário? Será que é isso mesmo, eu estou certo? Que merda."

E a frustração maior de um idealista é sua própria empolgação. Querer que as pessoas pensem. Os não-idealistas simplesmente não conseguem compartilhar da mesma empolgação, simplesmente por não serem idealistas. E nunca serão. Mas o idealista, eu, sou incansável em matéria de dar murro em ponta de faca. E não desistirei tão cedo. Esta, inclusive, é a razão íntima e última deste blog existir.


"Carpinteiro do Universo, eu sou assim....

No final, carpinteiro de mim"




Até mais, cabritos andarilhos dos trilhos de trem ~~