sábado, 21 de fevereiro de 2015

Sincericídio Suicida

Nesta semana, Pat Martin, um político canadense conhecido por sua extravagância e irreverência, saiu de sua cadeira no meio de uma votação importante, e teve a validade de seu voto questionada por um colega de Parlamento. Mas ele tinha uma boa desculpa, honesta, direta e sem papas na língua. Em tradução livre minha, ele disse mais ou menos assim:






"Senhor Orador, percebo que eu deixei meu assento inadvertidamente no meio do debate. Posso culpar uma promoção que foi feita na Hudson's Bay... Eles tinham roupa íntima masculina pela metade do preço, e eu comprei algumas que eram claramente muito pequenas pra mim, e achei dificultoso me sentar pelo menor período de tempo que seja. Então eu peço desculpas se me foi necessário sair do meu lugar tão rapidamente, mas não foi de minha intenção me abster de meu direito de votar" (Fonte: http://bbc.in/1AXLNYa )

E se sentou, arrancando palmas, risadas e sorrisos de parlamentares.

Como alguns de vocês sabem, o melhor seriado deste planeta, Doctor Who, me tem como fã incondicional há alguns anos. No episódio de despedida do Doctor mais wibbly wobbly de todos, Matt Smith, ele e Clara Oswald visitam uma vila adorável de nome 'Christmas'. Christmas tinha uma peculiaridade interessante (claro, além de ser sempre Natal lá): ninguém poderia dizer uma mentira. A Torre no meio da vila emanava um "Campo da Verdade" que impelia a todos a dizer a verdade nua e crua o tempo todo.

O Doutor e a Clara encontram um casal que lhes esclarece tudo isso, e, quando perguntados pelo Doutor se isso "não deixava a vida um tanto quanto difícil", cada um deu uma resposta diferente:





Eu gosto muito de um filme de Ricky Gervais que se chama "O Primeiro Mentiroso" (no original: "The Invention of Lying"), que se passa em uma versão do nosso mundo em que a humanidade nunca desenvolveu a capacidade de mentir. Neste mundo não existia ficção, religião, corrupção, manipulação, propagandas criativas e nem mesmo boas maneiras. Até que surge a primeira mentira, e em um mundo condenado à sinceridade absoluta, o Primeiro Mentiroso começa a se dar bem pra caralho.




Quando eu era menor, eu rachava o bico de dar risada de um sitcom que passava no Fantástico, "O Super Sincero", com Luís Fernando Guimarães. Diferente do mundo de Mark em 'O Primeiro Mentiroso', ele era o único a dizer a verdade pelada e não-cozida absoluta, doesse a quem dóia.



Eu sou e sempre fui uma pessoa muito honesta, direta e objetiva. Ao extremo. Nunca me ocorreu fazer uso de subterfúgios, encher linguiça ou amaciar a carne antes do abate. Pra quê? Se todas as pessoas dissessem o que desse na telha, este mundo seria um lugar muito mais interessante. Veríamos de cara as pessoas como elas são, não como elas fingem ser.

Porque todo mundo finge ser alguma coisa. Não encontrei ninguém até hoje que mostrasse 100% do que é, que conseguisse tal feito, ou sequer quisesse fazê-lo. As pessoas não são transparentes, não são esferas que se pode girar e ver a totalidade. As pessoas são poliedros complexos, com dezenas de facetas, cada uma usada para fins, situações e circunstâncias específicas.

E apesar de isso poder significar falsidade, e realmente significar quase que invariavelmente, é a maneira como os seres humanos chegam de fábrica. É natural.

O que eu sempre tentei fazer era envergar os vértices, terraplanar as arestas, e arredondar as faces. Então eu seria alguém totalmente transparente, interpretável até pelo menos sagaz, e previsível para o mais atento. Seria a mesma pessoa, independente do lugar ou circunstância. O mesmo que me visse discutindo Filosofia me reconheceria discutindo sexo. Ou filme de pancadaria.

Que idiotice tremenda.

Em uma circunstância normal, eu me sentiria bem em ver minha própria idiotice se revelando diante dos meus olhos. Mas nessa em específico, eu realmente me superei no grau de imbecilidade, então não estou tão feliz assim.

Será que a verdade absoluta deixa a vida mais fácil? Ou difícil? O casal da adorável Vila do Natal não conseguiu conciliar  à resposta que cada um deu.

Pat Martin, o político canadense, teve a vantagem de ser conhecido pela irreverência, o que faz da súbita honestidade dele algo ovacionável, gerando gargalhadas. O personagem de Luís Fernando Guimarães em O Super Sincero vê a verdade como uma vantagem, ao ponto que consegue o que quer com mais eficiência, e evita o que não quer sem grilação. 

Já Mark, o personagem de Ricky Gervais em O Primeiro Mentiroso, vê uma vantagem extraordinária em sair por aí dizendo "coisas que não são". Ele fica rico, famoso, bem sucedido, consegue admiradores, diminui o sofrimento da mãe, distribui esperança, felicidade, lamúrias e sofrimento com a intensidade que quiser. E ainda faz a gente rir pra caralho.

Se por um lado a mentira não oferece nenhuma praticidade real, nenhuma objetividade, é um completo desserviço à descoberta, um instrumento de manipulação e um insulto à inteligência de muita gente, tentar ser absolutamente sincero em meio à pessoas que não se importam de terraplanar suas facetas tal como você, é uma perda de tempo, uma burrice, uma ingenuidade, um capricho, e uma desvantagem incalculável.

"Eu estou gorda?" - Sim, você está gorda. "Pareço um completo idiota..." - Você é um completo idiota. "Estou sexy?" - Muito. 

A resposta vem na lata, sem neura, sem embromação. Parece muito simples, mas demanda muito tempo e energia pra que a pessoa realmente compreenda que, vindo de mim, essas coisas não significam absolutamente nada. Pelo menos, não o "alguma coisa" que a pessoa acredita que significa.

"Sim, você está gorda". O que a pessoa ouve é: "Você é feia, pelancuda, ninguém quer te pegar, você vai morrer sozinha se não parar de comer hambúrguer e ir fazer uma esteira agora, sua flácida". Mas eu não disse isso. O que eu disse foi: Você está gorda. Porque dá pra ver isso, então eu disse. E daí? Qual é o problema de ser gorda? Se você está me perguntando isso, é porque se sente pressionada a seguir o padrão de beleza que os outros te enfiam goela abaixo. Por quê? Não está bem consigo mesma? Por que você precisa de elementos externos pra afirmar sua autoestima? Não existe padrão para o Amor e o Afeto, como teimam em dizer que existe para a Beleza, então com certeza você é linda para alguém. Não precisa ser para a sociedade. Quem me conhece sabe minha visão sobre o tema Lu ,mas como eu sou sincero em todas as circunstâncias, a gorda que não estiver em meu círculo social vai se sentir extremamente ofendida.

"Você é um completo idiota". O que a pessoa ouve é: "Você não merece meu respeito seu monte de bosta, vai comer alfafa no estábulo junto com a jumenta da tua mãe, e aproveita pra aprender com o asno do teu pai como se soma 2 + 2". Essa afirmação geralmente é capciosa, já que as pessoas são muitos sensíveis à ideia de serem idiotas. Morrem de medo de serem idiotas. Quem não me conhece, e mesmo quem me conhece há um certo tempo, não entende minha intenção em chamar uma pessoa de idiota. Quando eu te chamar de idiota, não se sinta mal. Porque em certo grau, eu acho todo mundo idiota, isso não é privilégio seu. E não são só os outros. Eu digo sempre que 'todos deveriam se abrir para a possibilidade de serem idiotas'. Portanto, quando alguém diz que eu sou um perfeito idiota, eu não penso 'nossa, como ele me ofendeu, vou ficar putinho com ele'. Eu penso "Será mesmo?". Se você quiser me deixar louco da Silva, lelé da cuca, e absurdamente neurótico, me chame de algo ofensivo, tendo bases pra dizer isso. Porque eu vou sinceramente considerar a possibilidade de você estar certo, com todas as minhas energias.

"Você está muito sexy". O que a pessoa provavelmente ouve é: "Quero comer esse seu c* ainda hoje, tchutchuca".

Não! Não, não e não! Porra, como é difícil brincar quando se é um Sr. Verdade. Eu falo abertamente sobre sexo, assim como eu falo abertamente sobre tudo. Mas eu também sei brincar, sei dar risada e o que eu mais sei é usar o dom da ironia que Deus me deu.

Toda brincadeira tem seu fundo de verdade, mas isso não quer dizer que eu seja ninfomaníaco, tenha complexo de édipo, seja sadomasoquista, gay, tarado, curta inversão de papeis, tenha limites com meu corpo ou falta e intimidade com ele. A Teoria não é o mesmo que a prática, e ser o Sr. Verdade não significa não ter a mínima noção do que é intimidade.

...

Quanto tempo, quanta energia e quantos caracteres foram gastos pra explicar somente estes três vértices de uma das minhas facetas? Se você conseguiu chegar até aqui, meus parabéns. 

Ser sincero em nível Absoluto é um erro. Não se ganha transparência, apenas coleciona-se equívocos. Não se melhora a imagem, apenas confunde e embaralha a visão já consolidada de você mesmo para os outros. Não é prática nem objetiva, ao passo de ser preciso um blog para esclarecer e justificar a si mesmo. Não é bom e não ajuda. Não acrescenta e não edifica.

Portanto, a Arte de se cometer um sincericídio, consiste em dar um tiro no próprio pé, ao invés de mudar qualquer paradigma que seja.

Todo Sincericídio é Suicídio por definição.

E eu cansei de cometer Sincericídios Suicidas.

~~ Até mais, cabritos andarilhos dos trilhos de trem :}