sábado, 2 de maio de 2015

A Cláusula Pétrea do Conhecimento



Nesta vida, e quiçá na(s) próxima(s), eu busco apenas duas coisas - chamo de "Os Dois C's Fundamentais", ou algo mais portentoso - O Conhecimento & A Coerência. Duas coisiquinhas bobas, sem importância. É o objetivo de vida mais bosta que eu já vi por aí, mas, fazer o quê.

Essas coisiquinhas bestas e desimportantes são simples, mas estão longe de serem simplórias. Em meus tenros 17 anos de morte anunciada, vejo que é complicado levar esse objetivo de vida à sério. Porque é necessário ter um saco escrotal de elefantíase crônica pra poder abraçar a árdua tarefa de buscar a Verdade, com todo esse V maiúsculo e pomposo que insistem em sair vendendo por aí.

Normalmente a Verdade encontra-se em poder de poucas pessoas, detentoras de toda a sapiência e borogodó do Universo, as quais, dizem elas, possuem uma Verdade Única e Absoluta melhor que a Verdade Única e Absoluta daquele outro grupo de pessoas bem ali. E todo o resto, também. "Tá todo mundo errado nesse caralho". Curiosamente, quem é tachado de O Arrogante do Pedaço sou eu, e não o pessoal do borogodó. 

Eu não sou tão queiroso assim não. Meus dotes intelectuais dão pro gasto, mas não tanto. Tenho inveja desse pessoal. Enquanto eles já tem tudo resolvido, respondido e dignissimamente documentado, resenhado e bem-avaliado, o besta aqui ainda está procurando feito cego em tiroteio, achando isso a coisa mais trabalhosa que existe.

Mas eu tenho algo que "Eles" não têm. Ou até têm, mas usam com moderação. É uma ferramenta desenvolvida em tempos remotos, estonteantemente útil, mas cujo uso exige uma laboriosa dose de entusiasmo e discernimento. Chama-se O benefício da dúvida.

Benefício porque duvidar é bom. Ora essa. Tô errado? Provavelmente você dirá que sim. Ninguém sai por aí se vangloriando a plenos pulmões no meio da rua porque não tem certeza das coisas. Mas a Dúvida (esta sim, com D maiúsculo) é algo bom porque é um grande e potente filtro de barro, segundo a sua avó, melhor que os purificadores elétricos. Filtro de barro este que filtra as informações que chegam até você.

Suponha que estejamos eu e você em um corredor cheio de portas, e eu lhe digo que atrás de uma delas há um elefante branco se equilibrando sobre uma das patas, e equilibrando varetas com pratos girando nas pontas, enquanto um macaquinho faz malabarismo em cima da cabeça desse elefante.

E aí, com tremendo entusiasmo e vivacidade você me diz:

...

"Beleza então". 


E não abre a porta pra ver. Você acredita na minha palavra, e depois você sai por aí falando sobre a espetacular atração circense sobre a qual eu tinha dito. Não se importa em comprovar a real existência desse elefante branco, ou pelo menos duvidar o suficiente para abrir a porta, constatar que nem o elefante nem o macaco estão ali, e me dizer que eu deveria plantar batatas. Você não se importa.

Agora suponha outra situação. Suponha que a um detetive é dada a incumbência de investigar um assassinato e trazer o criminoso para a delegacia. O detetive prende um homem. Ao ser perguntado acerca das provas contra o suspeito que o detetive prendeu, ele começa a discursar sobre sua profunda convicção interior, sua certeza pessoal imperturbável, sua intuição insondável e por definição indiscutível de que aquele indivíduo era, sem sombra de dúvidas, o criminoso.

Você imagina este detetive construindo carreira? Eu muito menos. 

Nos dois exemplos, a falta de senso crítico ou a apresentação de verdades pessoais, imparciais e subjetivas não dão validade ao que está sendo alegado. 
O que é necessário fazer, então,   para que se tenha certeza, daquilo que é verdade, ou daquilo que não é?

Duvidar.

Badabingo.

Eis a resposta.

Ou seria a questão?




Quando eu digo duvidar, não é somente duvidar daquilo que parece estranho ou mal explicado, mas também daquilo que parece perfeitamente verossímil. Inclusive as Certezas do Pessoal do Borogodó.

É um trabalho de Jerico. Feito cortar as cabeças de uma Hidra. Quanto mais você duvida, quanto mais respostas  você amealha, mais dúvidas surgem. E entre uma resposta e uma dúvida subsequente, constrói-se o que se chama de Conhecimento.

A Dúvida é A Cláusula Pétrea do Conhecimento. Sem a dúvida, estaríamos em celeiros comendo alfafa. Precisamos duvidar de tudo, e de todos, para poder confiar em algo ou alguém. Sem a dúvida não podemos ser realmente livres.

E então, caros colegas, duvidemos, porque duvidar é o que há

E conhecereis a Verdade, me atrevo a dizer, e a Verdade vos libertará.

Busca e encontrarás!



...


Os desdobramentos deste filamento de raciocínios e devaneios inócuos e perfeitamente ignoráveis se encontram em Falácia da Incredulidade Pessoalfeito com muito amor e carinho pra todos vocês. 

Até mais, cabritos andarilhos dos trilhos de trem ;}